Lucas (que está farto de, ele próprio, se indignar profundamente com a canção, mas contraria o irmão a qualquer preço): São.
Manuel (com grande surpresa na voz - afinal, o irmão mais velho é - por enquanto - uma fonte fidedigna): Ai são?! Aguardo para ver quais as consequências desta informação na sua auto-estima de pequeno homem.
Canto-a desde pequena. Os meus filhos sabem-na de cor e o Lucas até já a toca na guitarra. É a minha canção de Abril. Agora, é com menos entusiasmo que chego à parte do "não voltaremos atrás", especialmente quando leio estórias como esta.
Voltava eu para casa à noite quando, fazendo zapping radiofónico no carro, dou com esta canção. E, de repente, toda uma letra sai da minha boca sem qualquer esforço. Ainda sei de cor cada palavra, a minha voz entoa cada nuance, volto a arrepiar-me tal como quando era adolescente e a ouvia no escuro do meu quarto, agarrada à almofada e vivendo com toda a intensidade o dramatismo típico dos 14 anos que não precisa de motivos para acontecer. Caramba, que flashback.
Eu sei que quem não tem filhos já está farto desta conversa e revira os olhos com o que soa a presunção, mas não me lixem. Quem não tem filhos simplesmente não pode saber. Ter filhos significa entrar numa nova dimensão em que a escala que mede os sentimentos literalmente explode. Em ambas as direcções. Qual extasy, qual spacecake, perto do enebriamento que se sente ao ver um filho feliz. No outro extremo, o sufoco que é supor um filho doente com alguma coisa estranha da qual nunca se ouviu falar é como estar dentro de uma cápsula cinzenta enquanto a vida acontece à nossa volta. Estamos ali, mas não estamos. Hoje, enquanto ia pela terceira vez meter moedas no parquímetro (três vivas para a pontualidade das consultas em hospitais públicos, hip hip, hurray!) sentia o sol a bater-me forte na cara e, no entanto, ele não me trazia nenhum calor. E depois, finalmente. Um médico que desdramatiza e nos explica com toda a calma que não há razões para pânicos. Que, em princípio, o Lucas é assim porque é o Lucas. Que o normal não existe e que os desvios do "percentil 50", gravado a ferro e fogo na cabeça da minha geração de mães, fazem parte do colorido da vida. Um médico que apetece abraçar, não fosse o embaraço que causaria a ambas as partes (isso e estarmos a ter a consulta praticamente no corredor). Agora, é esperar pelos próximos exames e fazer figas para que ele tenha razão. Que os doces olhos azuis-acinzentados do meu menino não sejam mais do que diferentes, por serem os dele.
Achei que tinha tido a minha dose de choque para a vida quando, numa tarde quente de outubro, há uns anos atrás, com o meu bebé de 2 meses ao colo, ouvi de um médico o palavrão "escafocefalia". Enganei-me. Hoje, com o outro filhote, já tão crescido e todo feliz da vida por ter andado de metro, tive que ouvir outro. É apenas uma suspeita e, por isso, resisto a introduzir o palavrão no google. Recuso esse auto-flagelo e espero - ah, a espera, como consegue ser terrível a espera - pela próxima semana, altura em que, talvez, venhamos a saber mais. E tudo o que senti há 4 anos e meio atrás volta com a mesma intensidade. Mas sem o factor surpresa. Em vez dele, uma sensação de estar dorida com pancada que já levei. A sensação de já ter estado neste lugar. Como um tsunami que me invade os dias e leva tudo à frente. E, mais uma vez, sentindo que me passaram para as mãos um pacote que não posso, mas tenho que carregar.
Estamos na fronteira, à nossa frente corre fresco o Guadiana, a observar os barcos e o casario branco da localidade quase-espelho na outra banda. Como sou a única que já lá esteve, conto como são as coisas do outro lado, logo ali, e ao mesmo tempo tão longe: que as pessoas falam outra língua. Que dormem a siesta. Que dantes costumava atravessar o rio com amigos e tinhamos que esperar que as lojas voltassem a abrir às 5 para comprarmos gelados com pesetas. Que ali tudo parece mais organizado, mais arrumadinho. Menos pobrezinho. O Lucas remata logo, em defesa da sua camisola: - Mas, também, eles não têm medidas de austeridade! (Filho, aos 8 anos eu nunca tinha sequer ouvido essa palavra, muito menos pensado nela. Lamento que ela já faça parte activa do teu vocabulário e te inquiete o espírito...)
Não sou propriamente esquisita no que diz respeito a destinos de viagens. Para mim, viajar, só por si, já tem fascínio suficiente. Quando era mais nova, chegava a ir ao aeroporto só para sentir o cheiro a viagens, perder-me num mar de gente a chegar e a partir. Mas Barcelona é, de facto, mesmo para fasquias mais altas do que a minha, uma cidade fascinante. Lá encontrei uma irresistível mistura de coisas boas e que, pelos vistos, afinal podem coexistir: por um lado, a alegria de Espanha, o pituresco, as ruas cheias a toda a hora (apesar do frio, muito), as palavras de sílabas abertas e sonoras, ditas com uma auto-confiança que parece vir nos genes. Por outro, a organização da Europa do norte: o sistema de bicicletas públicas, a organização dos transportes em geral, a conservação do património. É outro mundo, mesmo aqui ao lado.
Respeito e admiro a coragem. Respeito e admiro o amor pelos animais, pela natureza, pela vida selvagem. Rejeito o fundamentalismo. De qualquer espécie.
O Lucas está a ler. Na história há uma senhora de idade que tem um livro muito especial. Parece que o livro lhe conta a história da sua própria vida. Ao acabar de ler o livro, a senhora recosta-se para trás na cadeira de baloiço e fecha os olhos. Agora, o Lucas deve inventar um final para a história. Criativo como é, não me espanto quando prontamente diz: - Já sei o que aconteceu. - Sim? O que é que achas que aconteceu? (Imagino as coisas mais mirabolantes) - A velha morreu.
Querida Joana, queria contar-te uma história. É a tua história, a parte dela que eu vivi, que foi tão mais pequena do que eu gostaria. Primeiro, há 7 anos atrás, a notícia. Lembro-me do riso e do espanto, da felicidade e do receio que partilhei com a tua mãe numa certa manhã de outono. O teu irmão com poucos meses de vida e já tu vinhas a caminho. Depois, lembro-me da tua mãe, Mulher forte, sempre prática e despachada, carregando um bebé na barriga e outro no colo para todo o lado. Das idas dela para a praia, sozinha com o teu irmão de um ano e um barrigão de 8 meses. E logo, em Agosto, da alegria que veio com a mensagem do teu pai, avisando-nos da tua chegada. Pouco tempo depois, as aflições começaram. A tua luta pela vida, a luta dos teus pais por ti. Não há maior tormento do que saber que o nosso bebé não está bem. Que tem que ser submetido a inúmeras intervenções médicas quando só queríamos estar em casa e tê-lo aconchegado a nós. Seguiram-se meses e anos em que os nossos amigos deram a volta ao seu mundo para que tu estivesses o melhor possível. Para que a tua casa não fosse sempre um hospital. Surgiu Paris como o melhor lugar para tu viveres. E foi para lá que foram. Primeiro a dois, depois a quatro. Os teus pais são um exemplo de força e coragem, a prova de que tudo é possível, basta que a vontade seja do tamanho do amor por um filho. Vira-se a mesa e recomeça-se, sem lamentos desnecessários. Aprende-se a fazer massagens respiratórias. A fazer tratamentos e mudar catéteres intravenosos. Arranja-se um quarto em casa onde tudo tem que estar esterilizado. Deixam-se empregos. Deixa-se a casa. Muda-se de país. Muda-se a vida toda. Quando nos vimos pela última vez, era já mais que evidente o teu delicioso sotaque francês. Sentadas a uma mesa do aeroporto Charles de Gaulle, lemos juntas a história do bolo desaparecido e ensinaste-me a dizer canard. Passeei com a tua mãe por corredores intermináveis, empurrando o teu carrinho e falando de um presente que era um limbo e de um futuro que era um grande ponto de interrogação.
E agora assim, de repente, esta notícia que me esmaga e me deixa o olhar ausente e as acções lentas. Queria tanto estar ao pé da tua mãe. Como disse uma vez aqui, Joana, foste a menina mais doce que conheci. Estarás sempre no meu coração.
(Depois de ver o Lucas a falar eloquentemente com o Manuel) - Mãe, vou dar o meu chocolate do calendário do advento ao Lucas, porque gosto muito dele. - Hm hm. E o Lucas também te vai dar o dele a ti? - Hm... Não sei. Vou-lhe perguntar. E vai-se embora aos saltinhos e a cantarolar. É tão bom enquanto os irmãos mais novos ainda não notam que os mais velhos fazem uso da sua ingenuidade. Feliz Natal!