domingo, 3 de julho de 2011
De Vez em Quando o Ser Humano Precisa que lhe Fuja o Chão
Apanhar um susto, daqueles valentes, para depois se vir a descobrir que não passou mesmo só de um susto, tem efeitos espantosos. De repente, sentimos uma enorme felicidade só porque, afinal, fica tudo na mesma.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Hi Pumpkin
Há algo de mágico e maravilhoso em plantar uma semente, regá-la, ver a planta germinar, crescer e florir e, de repente, da flor que cai ficar um fruto, que vamos vendo aumentar de tamanho a cada dia...
Não, desta vez não estou a falar dos filhos em sentido figurado. Mas, pensando bem, os legumes e frutos que nós prórpios plantámos são como nossos filhos.
Sendo assim, sou mãe orgulhosa de duas lindas meninas, rechonchudas e de boas cores. E é ver-me, todas as tardes, a ir verificar o seu bem-estar e a elogiar-lhes o crescimento. Aceitam-se sugestões para uma digna transformação, lá para o outono, em caril, sopa, ou, quiçá, doce.
Não, desta vez não estou a falar dos filhos em sentido figurado. Mas, pensando bem, os legumes e frutos que nós prórpios plantámos são como nossos filhos.
Sendo assim, sou mãe orgulhosa de duas lindas meninas, rechonchudas e de boas cores. E é ver-me, todas as tardes, a ir verificar o seu bem-estar e a elogiar-lhes o crescimento. Aceitam-se sugestões para uma digna transformação, lá para o outono, em caril, sopa, ou, quiçá, doce.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Memórias de uma Mãe Nostálgica
Fui mais uma vez em busca de coisas para o bebé Jorge e voltei da arrecadação com as mãos cheias de roupas e brinquedos dos meus bebés.
Sento-me na sala e inicio outra vez esta viagem no tempo que agora faço regularmente, desde que o pequeno Jorge nasceu. Vou tirando as coisas dos sacos e, a cada peça, uma recordação: Lembro-me de ficar a olhar para o Lucas a dormir com este pijama. O Manuel ficava tão engraçado com estas calças. O Lucas adorava esta roca. Comprei estas jardineiras na Alemanha. Estas calças foi a avó que ofereceu. O Lucas tinha esta camisola vestida no dia em que caíu e bateu com a cabeça no parapeito da janela da sala. Fez o maior galo que eu já vi.
E assim, peça a peça, vou desfiando contas de um colar que é a minha vida enquanto mãe. Feita de momentos bons e maus, maravilhosos e angustiantes, todos intensos. Depois, guardo-as outra vez - as roupas e as contas - e fico a olhá-los pela janela, já tão crescidos, a jogar à bola, sem saberem que inevitavelmente me carregam consigo e eu os carrego comigo e desejo, mais uma vez, que o tempo páre de voar.
Sento-me na sala e inicio outra vez esta viagem no tempo que agora faço regularmente, desde que o pequeno Jorge nasceu. Vou tirando as coisas dos sacos e, a cada peça, uma recordação: Lembro-me de ficar a olhar para o Lucas a dormir com este pijama. O Manuel ficava tão engraçado com estas calças. O Lucas adorava esta roca. Comprei estas jardineiras na Alemanha. Estas calças foi a avó que ofereceu. O Lucas tinha esta camisola vestida no dia em que caíu e bateu com a cabeça no parapeito da janela da sala. Fez o maior galo que eu já vi.
E assim, peça a peça, vou desfiando contas de um colar que é a minha vida enquanto mãe. Feita de momentos bons e maus, maravilhosos e angustiantes, todos intensos. Depois, guardo-as outra vez - as roupas e as contas - e fico a olhá-los pela janela, já tão crescidos, a jogar à bola, sem saberem que inevitavelmente me carregam consigo e eu os carrego comigo e desejo, mais uma vez, que o tempo páre de voar.
sábado, 18 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Mãe, afinal de onde é que viemos mesmo?
Lucas: Mãe, eu também saí pelo teu pipi?
(Pronto. Está uma pessoa descansadinha e pimba. Que isto de ter crianças é assim, é como saltar de pára-quedas sem termos sequer percebido que estávamos num avião.)
Mãe (engasga-se com uma cereja e precisa de uns momentos para se recompôr): Não. Para tu saíres tiveram que me cortar a barriga e tirar-te.
(Sinceridade acima de tudo.)
Manuel: Iiiiih Lucas!! Não te doeu?
(Como se vê, a sinceridade não tem qualquer impacto. Hellooo? Foi a MINHA barriga que cortaram! Gajos. Umpf.)
(Pronto. Está uma pessoa descansadinha e pimba. Que isto de ter crianças é assim, é como saltar de pára-quedas sem termos sequer percebido que estávamos num avião.)
Mãe (engasga-se com uma cereja e precisa de uns momentos para se recompôr): Não. Para tu saíres tiveram que me cortar a barriga e tirar-te.
(Sinceridade acima de tudo.)
Manuel: Iiiiih Lucas!! Não te doeu?
(Como se vê, a sinceridade não tem qualquer impacto. Hellooo? Foi a MINHA barriga que cortaram! Gajos. Umpf.)
segunda-feira, 13 de junho de 2011
A conversa é como as cerejas? Depende do interlocutor.
sábado, 11 de junho de 2011
MAS POR QUE RAIO É QUE NINGUÉM INFORMA??
Tive que ir comprar mais Maizena.*
*Linguagem em código de mães que significa: O meu outro filho também apanhou a varicela.
Sim, depois de muito esperar que o Lucas tivesse varicela, foi aos 7 anos e meio. E que caso de varicela. O coitado passou um mau bocado, com centenas de borbulhas que lhe dificultaram bastante a vida durante uns tempos, que o impediram de comer (na garganta), de andar (nas plantas dos pés) e de se sentar (não digo).
Quando fomos à médica, ao 3º dia (a varicela apareceu a um sábado e eu já estava à espera dela) ela receitou o bendito aciclovir, sim, o amigo contra o herpes labial, que a varicela é da mesma família. Parece que só se recomenda em casos mais severos.
Depois de tudo passado, hoje, em conversa com uma conhecida que é pediatra, em contexto informal, ela disse-me que, quando um irmão apanha a varicela de outro irmão, deve-se dar-lhe o aciclovir logo nas primeiras 24h depois do aparecimento das primeiras borbulhas, porque é certo que será um caso bem mais grave, uma vez que o organismo esteve em contacto intenso com o vírus por causa do irmão. É diferente de apanhar de um colega de escola, por exemplo, em que o contacto é mais superficial. Soa-me perfeitamente lógico. A minha questão é: Será que teria custado muito à médica do CATUS, quando lá fui com o Manuel, perguntar-me se ele tinha irmãos e se já tinham tido varicela (aliás, até acho que comentei com ela que o irmão mais velho certamente também iria apanhar), e alertar-me? Ter-lhe-ia caído um dentinho? NÃO PERCEBO esta economia de informação em questões importantes e que está instalada como caruncho em tantas das nossas instituições. Ah! não sabia que era preciso ter carimbado o papel? Mas era! Ah! Afinal falta mais este impresso! Ninguém avisou? Ah! Não trouxe a fotocópia do comprovativo de morada, assim não podemos aceitar a inscrição. Como, ninguém lhe disse nada? Pois, não estava na lista mas era preciso.
Deixe lá. Eu volto. Eu perco outra manhã e venho cá outra vez. Não faz mal. O meu filho passou uns dias de cão desnecessariamente, e podia ter sofrido complicações, mas não há-de ser nada.
*Linguagem em código de mães que significa: O meu outro filho também apanhou a varicela.
Sim, depois de muito esperar que o Lucas tivesse varicela, foi aos 7 anos e meio. E que caso de varicela. O coitado passou um mau bocado, com centenas de borbulhas que lhe dificultaram bastante a vida durante uns tempos, que o impediram de comer (na garganta), de andar (nas plantas dos pés) e de se sentar (não digo).
Quando fomos à médica, ao 3º dia (a varicela apareceu a um sábado e eu já estava à espera dela) ela receitou o bendito aciclovir, sim, o amigo contra o herpes labial, que a varicela é da mesma família. Parece que só se recomenda em casos mais severos.
Depois de tudo passado, hoje, em conversa com uma conhecida que é pediatra, em contexto informal, ela disse-me que, quando um irmão apanha a varicela de outro irmão, deve-se dar-lhe o aciclovir logo nas primeiras 24h depois do aparecimento das primeiras borbulhas, porque é certo que será um caso bem mais grave, uma vez que o organismo esteve em contacto intenso com o vírus por causa do irmão. É diferente de apanhar de um colega de escola, por exemplo, em que o contacto é mais superficial. Soa-me perfeitamente lógico. A minha questão é: Será que teria custado muito à médica do CATUS, quando lá fui com o Manuel, perguntar-me se ele tinha irmãos e se já tinham tido varicela (aliás, até acho que comentei com ela que o irmão mais velho certamente também iria apanhar), e alertar-me? Ter-lhe-ia caído um dentinho? NÃO PERCEBO esta economia de informação em questões importantes e que está instalada como caruncho em tantas das nossas instituições. Ah! não sabia que era preciso ter carimbado o papel? Mas era! Ah! Afinal falta mais este impresso! Ninguém avisou? Ah! Não trouxe a fotocópia do comprovativo de morada, assim não podemos aceitar a inscrição. Como, ninguém lhe disse nada? Pois, não estava na lista mas era preciso.
Deixe lá. Eu volto. Eu perco outra manhã e venho cá outra vez. Não faz mal. O meu filho passou uns dias de cão desnecessariamente, e podia ter sofrido complicações, mas não há-de ser nada.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Viajar
"A melhor viagem é a que fazemos quando somos jovens e ainda vamos a tempo de aceitar as mudanças que a vida, o mundo, o caminho nos sugerem e nos apontam. A partir de uma certa idade (a da rigidez, do conforto, da falta de horizontes) já não somos viajantes, apenas transportamos as nossas certezas e preconceitos de cidade em cidade, de paisagem em paisagem, de encontro em encontro."
Li hoje esta frase do viajante Gonçalo Cadilhe e fui imediatamente transportada para os meus 20 anos. Eu viajei assim, ainda permeável, e foram tantas as mudanças que o mundo e o caminho fizeram em mim. Hoje sou o que sou (esta espécie de ave rara) em grande parte por ter mudado de país aos 20 anos e ter visto e experimentado modos de viver tão diferentes.
Ah, como invejo estas pessoas...
Li hoje esta frase do viajante Gonçalo Cadilhe e fui imediatamente transportada para os meus 20 anos. Eu viajei assim, ainda permeável, e foram tantas as mudanças que o mundo e o caminho fizeram em mim. Hoje sou o que sou (esta espécie de ave rara) em grande parte por ter mudado de país aos 20 anos e ter visto e experimentado modos de viver tão diferentes.
Ah, como invejo estas pessoas...
domingo, 22 de maio de 2011
Amido de Milho
Tenho o Manuel metido num caldo de Maizena.
(Para os leigos e não-progenitores, explico: isto é linguagem de código entre as mães e que significa "O meu filho está com varicela".)
Qualquer mãe experiente está ao corrente do facto de que o o prurido provocado pelas erupções desta benigna, mas irritante doença infantil é suavizado pelas propriedades calmantes do amido de milho. (É isso e a criança fica um bocado pálida, por isso não esquecer de enxaguar).
Prurido e erupções são o que não falta à minha pobre cria. Já não sei onde acabam as borbulhas e começa o Manuel. Tem-nas em sítios tão espantosos como dentro dos ouvidos, do nariz, da boca e até dos olhos, sem falar nos que não vou mencionar explicitamente e que assaz o incomodam.
Estamos nisto há dois dias e diz que é coisa para durar até 10. Venham eles.
(Para os leigos e não-progenitores, explico: isto é linguagem de código entre as mães e que significa "O meu filho está com varicela".)
Qualquer mãe experiente está ao corrente do facto de que o o prurido provocado pelas erupções desta benigna, mas irritante doença infantil é suavizado pelas propriedades calmantes do amido de milho. (É isso e a criança fica um bocado pálida, por isso não esquecer de enxaguar).
Prurido e erupções são o que não falta à minha pobre cria. Já não sei onde acabam as borbulhas e começa o Manuel. Tem-nas em sítios tão espantosos como dentro dos ouvidos, do nariz, da boca e até dos olhos, sem falar nos que não vou mencionar explicitamente e que assaz o incomodam.
Estamos nisto há dois dias e diz que é coisa para durar até 10. Venham eles.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Bora lá então
Depois de um dia em que as más notícias se sucedem, e quando pensamos que o dia já está no fim, acabamos a tarde em lágrimas e a noite no médico... só resta mesmo tocar em frente.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Como ispilico?
Lucas: Mãe, quando eu morrer também vou ruscitar?
Mãe: É REssuscitar. E não sei.
Lucas: Mas se Jesus ruscitou por que é que eu não posso ruscitar?
Mãe: Mas Jesus era uma pessoa especial.
Lucas (com indignação na voz): E eu não sou uma pessoa especial?!
Mãe: Sim, claro que és, mas Jesus era o filho de Deus.
Manuel: Mas Deus não é nenhuma mãe.
Epá, não me querem fazer antes perguntas sobre a vida de Buda? Hm?
Mãe: É REssuscitar. E não sei.
Lucas: Mas se Jesus ruscitou por que é que eu não posso ruscitar?
Mãe: Mas Jesus era uma pessoa especial.
Lucas (com indignação na voz): E eu não sou uma pessoa especial?!
Mãe: Sim, claro que és, mas Jesus era o filho de Deus.
Manuel: Mas Deus não é nenhuma mãe.
Epá, não me querem fazer antes perguntas sobre a vida de Buda? Hm?
quinta-feira, 28 de abril de 2011
As conversas do Manuel 9
Ao final do dia, a caminho de casa.
- Então, o que é que fizeste hoje na escola?
- Já me esqueci pol causa do vento.
- Então, o que é que fizeste hoje na escola?
- Já me esqueci pol causa do vento.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
As conversas do Manuel 8
Estou à espera que o Manuel saia do carro, mas está demorado porque decidiu despir o casaco.
- Por que é que estás a despir o casaco agora?
- Polque estou com um calôle do calaças.
- Por que é que estás a despir o casaco agora?
- Polque estou com um calôle do calaças.
sábado, 9 de abril de 2011
A Nossa Nova Amiga de 4 Patas
Estou na cozinha a comer um iogurte e a olhar lá para fora quando vejo, de repente, na parede ao fundo, algo a mexer-se rapidamente e a desaparecer por detrás do vaso dos recém-plantados e verdejantes framboeseiros.
Acostumada a passar as férias de verão no interior algarvio, as osgas não me são propriamente seres estranhos. Convivemos com tolerância, desde que o espaço individual seja mutuamente respeitado (isto é, elas nas paredes exteriores e telhados, ou escondendo-se entre as canas do tecto da cozinha, e eu cá em baixo a, pelo menos, vários metros de distância. (Dizem que elas de vez em quando se deixam cair lá de cima, mas eu ignoro esses boatos certamente criados para inquietar raparigas citadinas. Nunca vi nem quero ver.)
Tivemos até já alguns encontros imediatos, sendo que o destino da criatura dependeu sempre da companhia em que eu estava. Da primeira vez, há muitos anos atrás, estava com uma amiga mais medrosa do que eu, e após algumas tentativas falhadas de expulsar a intrusa do quarto, acabámos por usar o que se veio a provar serem horrendos métodos de tortura. Poupo-vos os detalhes, digo apenas que envolveu spray para o cabelo, duas raparigas dando gritinhos histéricos e uma morte lenta do bicho rastejante (eu sei, eu sei que foi cruel e vou sentir remorsos para o resto dos meus dias).
A segunda teve mais sorte, pois após recuperar do ataque que quase tive ao ver mais um exemplar desta espécie sair a alta velocidade do meu saco de viagem quando me preparava para por lá dentro as minhas roupas, chamei os gajos da casa, que conseguiram apanhá-la com uma grande caixa de plástico transparente e passaram o resto da tarde numa aula de ciências da natureza, admirando as fascinantes patas com ventosas, o belo tom verde do corpo, os olhos salientes e o ventre que parece de goma, antes de a soltarem nos campos. (Não sem antes fazerem experiências tão divertidas como colocar dentro da caixa bonecos da playmobil, e observar como ela reagia. Bah.)
Até ontem eu era já, pois, uma quase-especialista em osgas. Ainda assim, daí a ter uma na minha própria casa é toda uma nova dimensão.
Pelo que, depois do jantar, assim que as crianças se levantaram da mesa (não me estava propriamente a apetecer que fossem lá para fora arrastar vasos à procura da espantosa bicha), disse baixinho e com gravidade ao marido:
- Temos uma osga no terraço.
...
Não noto qualquer reacção. O rosto não manifesta a mínima alteração. Depois percebo porquê.
- Eu sei. É a nossa osga. Já vive connosco há vários anos.
Ah. Então está bem. Sendo assim, já fico descansada. E eu que tinha acabado de preencher os censos.
Acostumada a passar as férias de verão no interior algarvio, as osgas não me são propriamente seres estranhos. Convivemos com tolerância, desde que o espaço individual seja mutuamente respeitado (isto é, elas nas paredes exteriores e telhados, ou escondendo-se entre as canas do tecto da cozinha, e eu cá em baixo a, pelo menos, vários metros de distância. (Dizem que elas de vez em quando se deixam cair lá de cima, mas eu ignoro esses boatos certamente criados para inquietar raparigas citadinas. Nunca vi nem quero ver.)
Tivemos até já alguns encontros imediatos, sendo que o destino da criatura dependeu sempre da companhia em que eu estava. Da primeira vez, há muitos anos atrás, estava com uma amiga mais medrosa do que eu, e após algumas tentativas falhadas de expulsar a intrusa do quarto, acabámos por usar o que se veio a provar serem horrendos métodos de tortura. Poupo-vos os detalhes, digo apenas que envolveu spray para o cabelo, duas raparigas dando gritinhos histéricos e uma morte lenta do bicho rastejante (eu sei, eu sei que foi cruel e vou sentir remorsos para o resto dos meus dias).
A segunda teve mais sorte, pois após recuperar do ataque que quase tive ao ver mais um exemplar desta espécie sair a alta velocidade do meu saco de viagem quando me preparava para por lá dentro as minhas roupas, chamei os gajos da casa, que conseguiram apanhá-la com uma grande caixa de plástico transparente e passaram o resto da tarde numa aula de ciências da natureza, admirando as fascinantes patas com ventosas, o belo tom verde do corpo, os olhos salientes e o ventre que parece de goma, antes de a soltarem nos campos. (Não sem antes fazerem experiências tão divertidas como colocar dentro da caixa bonecos da playmobil, e observar como ela reagia. Bah.)
Até ontem eu era já, pois, uma quase-especialista em osgas. Ainda assim, daí a ter uma na minha própria casa é toda uma nova dimensão.
Pelo que, depois do jantar, assim que as crianças se levantaram da mesa (não me estava propriamente a apetecer que fossem lá para fora arrastar vasos à procura da espantosa bicha), disse baixinho e com gravidade ao marido:
- Temos uma osga no terraço.
...
Não noto qualquer reacção. O rosto não manifesta a mínima alteração. Depois percebo porquê.
- Eu sei. É a nossa osga. Já vive connosco há vários anos.
Ah. Então está bem. Sendo assim, já fico descansada. E eu que tinha acabado de preencher os censos.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Coisas de irmãos 4
Já foi há uns meses. Lembro-me de, um dia, olhar para o Manuel e pensar:
"Estranho. Ainda há pouco tempo me parecia que tinha que lhe cortar a franja muito em breve, e agora já não? Hm." (Isto não diz nada de bom sobre mim, eu sei.)
Foi então que olhei mais atentamente e fez-se luz. A irregularidade daquela franja não deixava dúvidas. Tinha andado ali tesoura alheia.
Fui investigar. Não foi preciso ser perita para encontrar uns tufos de cabelo debaixo da cama.
- Manuel, quem é que te cortou o cabelo?
(com a maior naturalidade) - Foi o Lucas.
- Luuuuuuuuuuuuuucaaaaaaaaaaaas!!!
- O que foi?
- Tu cortaste o cabelo ao teu irmão???!
- Então, ele pediu!
Tipo: a mãe nunca mais trata disto, dá tu aí uma mãozinha. E o outro: ok, eu trato disso. Chega-te aqui. Pronto. Olha, ficou um bocado torto, mas não faz mal, ninguém nota.
(E é verdade, ninguém notou!!!)
E agora, o que fazemos aos cabelos?, Deitamos fora., Na, deixa que eu meto-os aqui debaixo da cama.
(Ao menos eliminavam as provas, não?)
...
A dúvida: fico contente e orgulhosa com estas manifestações de autonomia, ou esbofeteio-me por ser uma mãe distraída e incompetente?
"Estranho. Ainda há pouco tempo me parecia que tinha que lhe cortar a franja muito em breve, e agora já não? Hm." (Isto não diz nada de bom sobre mim, eu sei.)
Foi então que olhei mais atentamente e fez-se luz. A irregularidade daquela franja não deixava dúvidas. Tinha andado ali tesoura alheia.
Fui investigar. Não foi preciso ser perita para encontrar uns tufos de cabelo debaixo da cama.
- Manuel, quem é que te cortou o cabelo?
(com a maior naturalidade) - Foi o Lucas.
- Luuuuuuuuuuuuuucaaaaaaaaaaaas!!!
- O que foi?
- Tu cortaste o cabelo ao teu irmão???!
- Então, ele pediu!
Tipo: a mãe nunca mais trata disto, dá tu aí uma mãozinha. E o outro: ok, eu trato disso. Chega-te aqui. Pronto. Olha, ficou um bocado torto, mas não faz mal, ninguém nota.
(E é verdade, ninguém notou!!!)
E agora, o que fazemos aos cabelos?, Deitamos fora., Na, deixa que eu meto-os aqui debaixo da cama.
(Ao menos eliminavam as provas, não?)
...
A dúvida: fico contente e orgulhosa com estas manifestações de autonomia, ou esbofeteio-me por ser uma mãe distraída e incompetente?
sábado, 19 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
A minha pátria, que língua é?
Quem lida, como eu, com várias línguas, talvez me possa confirmar esta teoria: uma pessoa transforma-se quando fala noutra língua.
Já tive algumas vezes a seguinte experiência: habituada a falar com alguém, por motivos profissionais, sempre numa determinada língua, ao fim de algum tempo julgo conhecer essa pessoa (no sentido de que sei o que esperar dela nos contextos em que nos cruzamos). Mas não. O que eu conheço é aquela pessoa naquele registo. Depois, por alguma razão, um dia, ouço a mesma pessoa a falar outra língua e, de repente, estou perante um desconhecido. A razão obriga-me a manter a familiaridade adquirida, mas emocionalmente estou cheia das inibições de quem está no processo de conhecer/descobrir alguém, misturadas com a supresa de ver a mesma forma com um recheio diferente. (É parecido com a sensação de, num filme dobrado, ouvirmos um actor que conhecemos bem, com outra voz, e a falar outra língua).
É surpreendente e nem sempre é bom. Já me aconteceu achar que simpatizava com alguém com quem falava sempre em inglês e, um dia, ouvi-a falar em português e fiquei horrorizada porque era uma tia de Cascais.
Agora dizem-me: ah, mas a língua é só um meio, e o que está por detrás não se altera. Pode não se alterar, mas a língua arrasta consigo uma atitude, uma visão do mundo, e mostra talvez um lado nosso que noutra língua poderá não estar visível. A tal senhora de que falei talvez não dominasse um sotaque snob em inglês, ou talvez não lhe fizesse sentido mostrar o seu lado snob quando fala inglês.
Pronto, mudo a teoria: a língua que falamos não nos transforma, mas mostra algo de nós que poderá não ser visível noutra.
P.S.: Quero ver este filme.
Já tive algumas vezes a seguinte experiência: habituada a falar com alguém, por motivos profissionais, sempre numa determinada língua, ao fim de algum tempo julgo conhecer essa pessoa (no sentido de que sei o que esperar dela nos contextos em que nos cruzamos). Mas não. O que eu conheço é aquela pessoa naquele registo. Depois, por alguma razão, um dia, ouço a mesma pessoa a falar outra língua e, de repente, estou perante um desconhecido. A razão obriga-me a manter a familiaridade adquirida, mas emocionalmente estou cheia das inibições de quem está no processo de conhecer/descobrir alguém, misturadas com a supresa de ver a mesma forma com um recheio diferente. (É parecido com a sensação de, num filme dobrado, ouvirmos um actor que conhecemos bem, com outra voz, e a falar outra língua).
É surpreendente e nem sempre é bom. Já me aconteceu achar que simpatizava com alguém com quem falava sempre em inglês e, um dia, ouvi-a falar em português e fiquei horrorizada porque era uma tia de Cascais.
Agora dizem-me: ah, mas a língua é só um meio, e o que está por detrás não se altera. Pode não se alterar, mas a língua arrasta consigo uma atitude, uma visão do mundo, e mostra talvez um lado nosso que noutra língua poderá não estar visível. A tal senhora de que falei talvez não dominasse um sotaque snob em inglês, ou talvez não lhe fizesse sentido mostrar o seu lado snob quando fala inglês.
Pronto, mudo a teoria: a língua que falamos não nos transforma, mas mostra algo de nós que poderá não ser visível noutra.
P.S.: Quero ver este filme.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
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